Poesia Falada

 

Em meados dos anos setenta, quando a poesia marginal tomou corpo, o termo “declamar poesia” caiu por terra, sendo substituído pelos mais moderninhos por “falar poesia”. Nascia ali a Poesia Falada, que pretende aproximar-se ao máximo da naturalidade da fala, fazendo o poema parecer-se com uma conversa. Falar um poema é interpretá-lo, assim como fazem cantores e atores – nesse caso, o personagem a ser interpretado é o poema

Porém, como a maioria dos poetas não é ator, seguem algumas dicas importantes para melhorar nosso desempenho no palco ao falar poesia.

Primeiro passo: a compreensão do poema

Para falar bem um poema é preciso compreender o significado de cada palavra para descobrir sua correta entonação, e entender sua pontuação para direcionar sua respiração, suas pausas. Muitos poetas teimam em falar poesia verso a verso, quebrando o sentido das frases e, muitas vezes, comprometendo a compreensão do poema. Não se prenda em marcar as rimas. Elas surgirão naturalmente em sua fala poética.

 

Passo dois: internalização e memorização do poema

Há quem prefira, talvez por insegurança, ler seus poemas ao invés de decorá-los, levando sempre ao palco um livro, o celular ou um pedaço de papel a tiracolo. Mas, cá pra nós, é bem mais interessante ver um poeta interpretando sua poesia com liberdade corporal do que preso às palavras de um papel, não concorda?

Existem várias técnicas para decorar textos e cada poeta deve procurar a que melhor se encaixa em seu perfil. Tem poeta que grava o poema em áudio e ouve repetidas vezes, os que falam a poesia para o espelho, no chuveiro e tem os que preferem transcrever esse poema incansavelmente, até que ele saia do papel e vá morar em sua memória.

É importante fazer uma memorização gradual, degustando cada verso separadamente, internalizando sua textura mais que o próprio texto. No final é só juntar cada um deles no poema. Costumo ensaiar os poemas voltando sempre ao início quando erro alguma palavra – até acertar.

 

Passo três: fé cênica

Acredite no que você está dizendo para que o público também acredite. É importante declamar não só com as palavras, mas com o corpo, com o olhar. Não há problema em gesticular, gritar, rolar no chão e fingir de morto, desde que o texto realmente peça isso. Cuidado com os excessos cênicos que desviam a atenção do público. Afinal, a grande estrela do palco é a poesia.

 

Passo quatro: impostação da voz

Falar poesia em um palco iluminado com sistema de som profissional é lindo, não é? Mas quando a apresentação for em um bar ou na rua, em meio às buzinas e outras urbanidades, o que fazer? Uma dica é conhecer sua identidade vocal e adequá-la à situação. É imprescindível que o volume da voz não interfira em sua interpretação, dando um cunho de dramaticidade onde não cabe, por exemplo.

 

Passo cinco: relaxe e divirta-se

O momento de falar um poema é a coroação de seu trabalho árduo que passou pelas fases de pesquisar, escrever e decorar o poema. Não deixe que questões externas atrapalhem esse momento. Em muitas apresentações poéticas, geralmente em bares ou festas, ouvimos mais gente pedindo silêncio do que gente realmente prestando atenção às palavras do poeta. E como disse Heitor Villa-Lobos a Vinícius de Moraes: “Temos o ouvido interno e o externo; é com o interno que componho”. Essa dica também vale aos poetas que devem compreender que silêncio não se pede, se conquista. Sempre haverá os que querem te ouvir. Fale para esses.

 

Passo seis: o final do poema

Poetas, nada mais sem graça do que terminar um poema e ter que dizer que acabou para que o público se manifeste. Nesse momento use a entonação de sua voz para indicar o final, use um gesto, uma prévia e curta respiração, um gracejo com o microfone. No caso de falar poemas autorais, informe seu nome ao público. Não sendo autoral, fale antes do poema o nome do poeta.

 

Texto de Marina Mara, do livro Profissão Poeta, 2016

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