Poesia e Cultura RAM

Este capítulo é inspirado no livro Cultura RAM, de 2007, do teórico é crítico espanhol José Luis Brea, referência em estética e teoria da arte contemporânea com sensibilidade de enxergar a tecnologia como uma expressão poética, entre outras questões-chave de nosso tempo-espaço. Esta leitura é de suma importância para compreendermos as mudanças socioeconômicas na “era digital” para nos inserirmos nessa cadeia de forma sustentável e produtiva.

O nome do livro é uma analogia que Brea fez com a memória RAM dos computadores (Random Access Memory - Memória de Acesso Aleatório) pois o tipo de memória que produz a cultura não se trata somente de armazenamento de dados, mas sim de produção de processos e interconexões ativas e produtivas. Esses dados, esse conhecimento, são um organismo em constante desenvolvimento e são a matéria-prima da economia simbólica - o “novo espírito do capitalismo” e da indústria cultural.

Nessa economia de coletividade não há recepção passiva, na qual o emissor é o exclusivo autor, o leitor também produz, colaborando para essa colcha de retalhos coletiva costurada na cultura  RAM de nosso tempo. A mensagem originalmente enviada não será a mesma recebida, pois as faculdades cognitivas com as quais decupamos a informação depende da formação empírica e do olhar único de cada um.

A propriedade intelectual em tempos de economia sustentável se vê cada vez mais diluída nos  processos participativos que culminam em uma inteligência sistêmica e democrática. Nosso sistema legislativo não acompanha a velocidade desse cyber-darwinismo em constante adaptação e por isso da complexidade jurídica acerca de direitos autorais de produção imaterial.

Na cultura digital, essa irreversível transformação em nosso modo de comunicação e expressão, a produção do patrimônio imaterial é de ordem coletiva, enriquecendo a todos por meio do conhecimento compartilhado. Essas novas economias - mais criativas e solidárias - são quase um comunismo do conhecimento no qual o valor não está mais ligado à escassez, mas à abundância de informação, o que não ocorria nos ultrapassados modos de produção da indústria cultural e unilateral pré-internética. Não se trata de tirar a propriedade intelectual de alguns, mas sim de estender a todos o direito à essa informação de forma sustentável.

A futurotopia é uma crônica otimista sobre pixels e paixões escrita na linguagem de outros mundos possíveis. Mundos que degustem a poesia contida na linguagem retroatualizável da cultura RAM. O que chamamos de real nada mais é que uma produção social, o imaginário coletivo nascido de uma constelação dispersa de perspectivas. Isso não quer dizer que o real seja simulacro ou mera representação, ele é a materialização de inumeráveis visões em choque.

O termo mercado na cultura RAM poderia ser sustituído por fluxo contínuo de bens imateriais em circulação permanente, esse estado constante de comunicação formado por esse quebra-cabela de singularidades múltiplas que forma o conhecimento. Essa nova economia não está ligadas à exploração do conhecimento, mas sim à sua produção e partilha com o mundo - em suma, uma economia líquida chamada pensamento.

Os formatos livres e retroalimentados das relações dão a tônica da cultura RAM e são corroborados pela nutopia, termo sugerido por John Lennon e Yoko Ono ao final do século XX, sobre a realidade cidadã de cada ser humano se definir por seu estado conceitual e não por questões geográficas, étnicas ou religiosas. A cultura RAM se desenvolve no lugar do não lugar, sem sedes, sem território, com raízes filosóficas e asas criativas fluindo na “universidade do saber, a universidade sem condição” e sem saberes absolutos, porém em constante aprimoramento, fugindo dos modelos baseados no “capitalismo do conhecimento”.

A confluência entre arte e tecnologia é fértil como possibilidade de multilingagens para fruição e expressão poética, para formação de nosso inconsciente óptico, além de oferecer inovadoras formas de circulação e compartilhamento da informação. A tecnologia possibilita a materialização da poesia em pixels, flashes, paisagens sonoras e linguagens editadas em um poderoso dispositivo de produção cognitiva, o nosso olhar. Essa “e-image” seria por definição uma “imagem-tempo”, o nosso grande memorial do ser.

Nossa história evolutiva está escrita em nosso “museu RAM”, um espaço de conectividade de impressões sobre o passado e o futuro, traçando o caminho das inovações e a formação de nossos empíricos traços culturais. Os formatos de produção e consumo da indústria cultural e de entretenimento vem passando por fortes transformações. Atualmente seu  principal capital é sua produção imaterial. Porém, junto à imprescindível democratização do conhecimento, veio a mercenarização do discurso crítico e a multiplicação de informações que atendem a arbitrários interesses políticos e econômicos diluídos em sua mensagem não mais imparcial.

Mil “e-telas” são mil janelas para universos diferentes, mil possibilidades de conexão real e diversa pautada na produtividade e na atualidade, na fabricação e não somente no armazenamento de conhecimento. A pesquisa universitária, assim como outras fontes de fruição de conhecimento, favorecem no desenvolvimento cognitivo, edificando um pensamento crítico autônomo e não-condicionado, o que difere o povo da massa. O poeta do simples produtor de poemas.

 

Texto de Marina Mara, do livro Profissão Poeta, 2016.

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