PARA UMA CRÍTICA DO PRESENTE, por Marcos Fabrício

É com muita alegria que anunciamos a estreia do escritor, poeta e pesquisador em Literatura MARCOS FABRÍCIO LOPES DA SILVA como colunista do blog  "E agora, Cora?". Marcos Fabrício compartilhará neste rico espaço de troca seus artigos sobre o universo literário e poético que pesquisa. Nosso colunista é autor dos livros de poesia: Dezlokado (2010), Doelo (2014), Chapa Quente (2015) e Aberto pra gente brincar de balanço (2017). Professor da Faculdade JK. Jornalista, formado pelo Centro Universitário de Brasília – UniCEUB. Doutor e Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. Graduando em Letras/Português pela Universidade de Brasília – UnB. Integrante do Coletivo AVÁ e colunista do blog E agora, Cora?


PARA UMA CRÍTICA DO PRESENTE

Marcos Fabrício Lopes da Silva*


Platão pensa o tempo tomando como referência a eternidade. Já Aristóteles conduz sua análise refletindo sobre o instante, o agora. O agora estabelece a continuidade do tempo ao manter unido o passado e o futuro e é, concomitantemente, o fim do passado e o princípio do futuro. Além disso, que se observe o caráter absolutamente fugidio, escorregadio do agora: basta tentar deter nossa atenção no instante presente para logo verificarmos que ele já passou. E, no entanto, esse momento que se anula perante o infinito pode ser simplesmente posto de lado? Se não for pelo agora, por onde penetramos no tempo? De qualquer forma esse presente enigmático continua até hoje a suscitar. Diz a voz poética de Carla Andrade, em “Arquitetura do desejo” (Artesanato de Perguntas, 2013): “Tempo,/flanela das remelas/dos dias./Tempo, escavadeira de/esperanças./Tempo, bailarina no/deserto./Leve embora suas pernas oleosas/para onde não haja as mãos da/saudade”.

 Entrando nos pormenores que a análise de um texto desse porte exige, as coisas revelam sua existência no presente ou a presença das coisas é sinal de sua existência; pela memória, imagens das coisas passadas tornam-se presentes; pela expectativa, ações futuras são trazidas para o presente. Talvez possamos apontar, em primeiro lugar, que certas categorias próximas do conceito do presente, como “instante”, “agora”, “já”, devem ser vistos com um potencial “metafísico” maior do que outros como “atualidade”. E, em segundo lugar, que devemos pensar o presente com mais rigor, ou seja, como um enigma de natureza sociopolítica, enigma cuja decifração constitui desafio permanente. É imprescindível, para poder dar sequência às nossas considerações, determo-nos por um momento no livro de Irene Cardoso, Para uma crítica do presente (2001). Combinando de maneira criativa as perspectivas de Foucault, Adorno e Benjamin, com uma visada psicanalítica, a autora reconstrói a problemática relação com o nosso passado recente.

 Primeiramente, diríamos que o presente comparece como passado recente, circunscrito, no âmbito político, pelo golpe de 1964, o ato institucional de 1968, os anos da ditadura, da abertura, da transição, da redemocratização. No entanto, o objetivo não é o de registrar fatos, à maneira da historiografia oficial, mas de contribuir ativamente para que no nosso presente não ocorra o esquecimento da tragédia. Para tanto, a autora interroga, “a partir da dor”, o acontecimento de 1968 como o lugar temporal da emergência brutal de um conjunto de “fenômenos sociais surgidos das profundezas e que sem ele continuariam enterrados”. Fenômenos de natureza e relevância diferentes, mas todos marcados pelo dilaceramento, pela perda, pela separação, pela tortura, pelo sofrimento, pela morte, enfim, pela mais profunda desumanidade, tudo contribuindo para a formação de uma chaga viva de uma ferida que não cicatriza nem conhece consolo ou remédio.

Assim poderíamos caracterizar o primeiro momento da crítica: o presente como lugar que permite a crítica à história recente, mas ao mesmo tempo como lugar em que se pode detectar os mecanismos pelos quais esta vai sendo aos poucos esquecida, neutralizada e posta em estado letárgico, isto é, silenciada. Num segundo momento, o perigo é bem maior: é como se a ordem simbólica da construção do tempo fosse inteiramente petrificada, e com isso a relação com o passado se tornasse impossível. Não se trata de dificuldades operacionais da reconstrução do passado ou do exercício da narrativa, mas de uma fixação tal no presente que a história perde o sentido:

“A narrativa da própria história sequer se coloca como questão para aqueles cuja vivência está restrita a um presente como dimensão homogênea e que são incapazes de transcendê-la. A permanente referência ao imediatamente presente e a predominância quase que absoluta a uma linguagem prático-comunicativa tendem a abolir a dimensão do simbólico e a própria possibilidade de uma busca de singularização a partir de uma ancoragem primeira de reconhecimento numa história”. “Presenteísmo” é a expressão de Eric Hobsbawn que melhor resume essa intensificação do presente na cultura contemporânea, esse presente sem história e sem memória, cujo alcance temporal não vai além do imediato.

Em suas conferências pronunciadas a partir dos anos de 1950, Martin Heidegger, bem antes da violência torna-se tão aguda como nos dias de hoje, perguntava-se sobre o significado da bomba atômica, o medo e o pavor que ela desperta: “Horror e terror é o poder que joga para fora de sua essência, sempre vigente, tudo o que é e está sendo. Em que consiste este poder de horror e terror? Ele se mostra e se esconde na maneira como hoje tudo está em voga e se põe em vigor, a saber, no fato de, apesar da superação de todo distanciamento e de qualquer afastamento, a proximidade dos seres estar ausente”. No presente, há sempre dois caminhos: um para a criação, a beleza, a vida; outro para a feiura, a destruição, a morte. Acho que o presente pode ser comparado a uma janela, a qual, aberta, permite a contemplação da paisagem: passado, futuro. A respeito, retrata dialeticamente Caetano Veloso, em Oração ao Tempo (1979): “És um senhor tão bonito/Quanto a cara do meu filho/Tempo, tempo, tempo, tempo”.

O medo do futuro é forte, mas não tem o poder de tirar a coragem do presente. Não se pode esquecer que o tempo das utopias é sempre o presente, pelo menos como origem, mas a sua realização enquanto ideia, delineamento, plano ou proposta será sempre o futuro. O presente sempre fornece o material essencial para uma avaliação crítica de uma sociedade que apresenta falhas, imperfeições, desmandos e injustiças variadas. A história da humanidade é marcada pelo surgimento recorrente de modelos utópicos de convívio social.

 

* Professor da Faculdade JK, no Distrito Federal. Jornalista, formado pelo UniCEUB. Poeta. Doutor e mestre em Estudos Literários pela UFMG. Graduando em Letras pela UnB.



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